sábado, 28 de novembro de 2009

"Periafricania/Brasileiroz" - Frente 03 de Fevereiro e Gaspar



A vida segue e eu também. Hoje vou falar um pouco desse clássico da música popular brasileira. Periafricania ou Brasileiroz foi criada pelo rapper Gaspar do grupo Z'africa Brasil especialmente para o fantástico documentário Zumbi Somos Nós , organizado pelo coletivo Frente 03 de Fevereiro. Caros , sem a menor sombra de dúvida  essa música pra mim é o maior hino de luta do povo brasileiro.


"Não tenha medo em dizer que tu é preto / Não tenha espanto em dizer que tu é branco / Não seja omisso em dizer que tu é índio / Nos toca-discos corre sangue nordestino / "Antigamente quilombos, hoje periferia / O esquadrão zumbizando as origens, “z’africania” / Somos filhos de uma terra sagrada / Qualquer periferia, qualquer quebrada é um pedaço d’África"


Na música "é nóis" do 509-E um dos integrantes do RZO diz que o R.A.P bate forte como o boxe. Que o R.A.P bate forte eu não tenho dúvida, mas nessa música só os primeiros versos acima leva qualquer um à nocaute, é como se fosse um cruzado de direita na mente de cada cidadão brasileiro.


O Brasil em suma é uma extensão da África que ao longo da história foi criando vida própria, mas que a elite sempre fez questão de varrer pra de baixo do tapete qualquer influência que não fosse européia. Quem nunca ouviu: "Aboliu a escravidão e o negro sem condição foi da senzala direto pra favela", a música escancara essa realidade, mostra todo o descaso pós-abolição e um pouco da luta e a influência  de um dos primeiros revolucionários do Brasil, Zumbi dos Palmares, que ao lutar por liberdade lutava também pela educação, saúde, contra a pobreza, igualdade, por uma vida digna com plenitude de direitos.


A música é tão impactante que trancende o vasto universo chamado Brasil e aflora no universo América, no universo África.  


"A senzala do passado se perdeu na escuridão / Com ela a dor do extermínio e da escravidão / Quiloas, Bantos, Monjolos, Cabinda, Mina, Angola, Brasil, Cuba, Ruanda, Haiti, Jamaica, Etiópia / Conquistas, glórias, derrotas, vitórias / De tantas batalhas traçadas, misturando raças com as marcas da velha África"


Ela nos grita toda influência e ação negativa executada por aqueles que colocaram não apenas uma nação, mas a vida de seres humanos na condição de submissão em prol de interesses próprios, transformando a dignidade da pessoa humana em algo inexistente. A música reflete a eficácia da segregação e da dor criada pelos colonizadores, mostra também a sua ineficácia em reparar as mazelas sociais e promover melhores condições.


"Eu quero ouvir os tambores, as vozes, os rumores / No paredão, o som regando a paz / A Trindade Solano amores / Tirei do Cartola. Lenineei as poesias. Saquei um Garrincha / E da luz de Luiz, fiz a Melodia / A fusão, a toada de uma raça libertária / Sou Haile Selassie é ou não é djamba sagrada / Sou Mumia Abu Jamal, destruindo as celas / Sou James Brown, Berimbrown, Nino Brown. Sou da favela. / Sou Kingston. Chamo Capão. Sou marrusso / Sou sucupira, balanço lundu. Sou jongo, sou 1 da Sul / E nos antigos mistérios da quilombologia, toda quebrada é quebrada na grande periafricania"
 

O mano Gaspar tem a sensibilidade de mostrar o desenvolvimento, a multiplicação e evolução do líder Zumbi, que ao longo dos anos foi se propagando na consciência de muitos revolucionários negros e não negros, e entenda revolucionário todo aquele ou toda aquela que através de qualquer ação tenta transformar sua realidade, seja com a música, a poesia , o esporte ou qualquer outra ferramenta.


O mano ainda se supera na forma em que canta e que encanta, na denúncia poética, em cada rima e em cada verso que versa. Essa obra prima da música popular brasileira se faz perfeita no contexto em que é empregada pelo documentário Zumbi Somos Nós, mostra a essência de Zumbi, a resistência, a coragem e luta dos aquilombados em defender sua quebrada em pleno o século XXI, o prédio Prestes Maia que é apenas um pedaço  D' África.


Eu acho que o link para a obra da qual eu faço a "suposta interpretação" deveria vir no começo do post, mas fazer o que né? Quem nunca ouviu a música pode acessar o site http://www.frente3defevereiro.com.br/ e ir no item disco ou clicar nesse link -> Periafricania (Zumbi Somos Nós)e acompanhar o trecho original extraído do documentário. Aconselho primeiro ver o video no youtube e depois a se embriagar de arte no site da Frente 03 de Fevereiro.




2 comentários:

  1. Tânia Villarroel28 de abril de 2012 08:57

    Eu ADOROOOO se toda música brasileira tivesse esse nível de consciência...Se toda música tivesse objetivos realmente artísticos, seríamos pessoas melhores...

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